Conheça histórias inspiradoras de pessoas com deficiência no mercado de trabalho


Cíntia Santos, psicóloga e coordenadora de projetos do Instituto Ester Assumpção - Foto: acervo pessoal.


O Instituto Ester Assumpção, que trabalha com o objetivo de tornar as empresas cada vez mais inclusivas, sendo um elo entre organizações e candidatos com deficiência, coleciona cases interessantes, como o do advogado com deficiência visual, Sávio Ribeiro e da Thamires Souza, com deficiência intelectual


Exemplos de profissionais que, com muito esforço, desbravam o mercado de trabalho e alcançam reconhecimento são comuns. No entanto, quando se trata de pessoas com deficiência, diante de todas as dificuldades que a falta de acessibilidade impõe, a história é um pouco diferente. Mesmo assim, existem iniciativas que atuam no sentido de promover a inclusão e fazer com que o indivíduo com deficiência seja e, acima de tudo, se sinta útil e produtivo para trabalhar e crescer profissionalmente. O Instituto Ester Assumpção, situado em Betim, Região Metropolitana de Belo Horizonte, é referência quando se fala em inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

De acordo com Cintia Santos, psicóloga e coordenadora de projetos da instituição, sua equipe coleciona cases de sucesso. "Tem dois casos que eu gosto de lembrar, porque envolveram uma transformação muito significativa na vida desses indivíduos. O primeiro é o da Thamires Souza, que tem deficiência intelectual. Quando chegou ao Instituto, ela tinha pouca autonomia e ainda precisava do auxílio dos familiares na prática de atividades da vida diária. Após ingressar no curso de qualificação e posteriormente no Programa de Aprendizagem Profissional do Instituto, ela se tornou muito mais autônoma e hoje ela cursa faculdade de Pedagogia, está empregada e investindo no seu próprio negócio", comemora.

Ainda segundo Cíntia, outro exemplo inspirador é de um rapaz com deficiência visual, se formou em Direito e atualmente trabalha na área jurídica. "Outro caso muito legal e satisfatório que acompanhamos foi o do Sávio Ribeiro. Ele tem deficiência visual total e fez cadastro quando ainda tinha 16 anos de idade. Com muito empenho ele fez cursos de qualificação e ainda um estágio conosco, na sede do Instituto. Posteriormente cursou faculdade de Direito e hoje trabalha como advogado. Isso nos enche de muito orgulho", diz.

Determinação

Para Sávio Ribeiro, com 25 anos de idade e com deficiência visual, a sua inclusão no mercado de trabalho se deu através da transição do ensino médio para o superior e pelo apoio do Instituto Ester Assumpção. “Eu tenho cegueira total atualmente, mas nasci com visão normal. Com 10 anos de idade eu perdi a visão do olho esquerdo jogando futebol e em decorrência da bolada no rosto, o que acabou desencadeando o quadro de glaucoma no lado direito, que fez que eu perdesse totalmente a capacidade de enxergar. Mas eu segui em frente e em 2014 comecei a cursar Direito na PUC Minas. No mesmo ano, recebi um convite do SENAI Betim para participar da Olimpíada do Conhecimento na modalidade da Tecnologia da Informação para competidores cegos. Fiquei até janeiro de 2015 e sai por uma decisão minha. Em março de 2015 fui trabalhar na PUC Minas como professor do curso de Informática Básica MVDA. Curso voltado para pessoas cegas e com deficiência visual do programa de capacitação e qualificação profissional ofertado pelo Núcleo de Direitos humanos e inclusão”, comenta.

Sávio lembra que a mudança para atuação na área jurídica veio logo depois. “Em 2016 eu participei de um processo seletivo para estágio de Direito, a partir do 5º período no TJMG de Betim. Em dezembro, tomei posse na vaga tendo passado em 1º lugar nas vagas para pessoas com deficiência e 7º na classificação geral, onde fiquei até junho de 2019 atuando como conciliador. No primeiro semestre de 2019, tirei a carteira da OAB, mas sem perspectiva de emprego, pois não tinha em mente a pretensão de montar um escritório de advocacia. Assim, em outubro do mesmo ano surgiu uma oportunidade de um processo seletivo para advogado, com uma vaga exclusiva para pessoa com deficiência, na Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais (Cohab) e tive a alegria de ser escolhido para atuar no setor jurídico. Hoje sou um dos 11 advogados da companhia representando o estado. Além disso, também trabalho para pessoas físicas”, comemora.

Sobre o mercado de trabalho, Sávio diz que já foi possível avançar alguns passos, mas ainda existem situações que preocupam. “Ainda vejo algumas nuances, pois são poucas e raras as empresas que se enquadram a estarem obrigadas a cumprir a legislação de cotas. Poucas são as que contratam o número, também excedentes nesse caso. Outra nuance que vejo, é de ver vagas, sempre na maioria, que exigem baixa escolaridade para certos. Assim, são poucas vagas que exigem curso superior e principalmente vagas de alto escalão, como gerência e etc. Vejo que temos muito a vencer, já que muitas empresas, apesar de estarem cumprindo a lei, acabam buscando meios fraudulentos. Já avançamos, mas temos muito a caminhar”, analisa.

Quanto aos desafios enfrentados, Sávio lembra do seu processo de formação acadêmica. “Durante toda a faculdade de Direito não tive apoio de adaptação na questão de material. Mesmo tendo o setor de Núcleo de Apoio e Inclusão (NAI) na PUC, lembro que ele não funcionava de forma eficiente. Ou seja, matérias simples eles demoravam para me entregar. Assim, pela total ineficiência, eu mesmo ia atrás e quando eu não encontrava uma obra em versão eletrônica, eu mesmo digitalizava para poder fazer o estudo. Esse foi um desafio, pois me exigia, às vezes, muito temp. Lembro que hoje, mesmo atuando como advogado, vejo desafios para alçar outras oportunidades por causa da questão da lei de cotas. Assim, para mais oportunidades, além do desafio da questão da acessibilidade arquitetônica, precisamos de conscientização social. É um caminho árduo e não acredito nessa utopia que toda a sociedade vai aceitar essa inclusão. A lei, como medida coercitiva não atinge o objetivo”, analisa. No sentido de promover a inclusão no mercado de trabalho, Sávio lembra que o trabalho do Instituto Ester Assumpção é muito importante. “Conheci a instituição há uns 10 anos, através de um curso de capacitação oferecido pela PUC em parceria com eles. Inclusive, ao final do curso de auxiliar administrativo que fiz, eu cheguei a passar uns 2 meses frequentando as dependências do Instituto, fazendo um estágio prático, que era de atualização de cadastro. Foi muito bom para minha formação”, conclui.

Quebrando preconceitos

Outro caso de sucesso é de Thamires Souza, que tem deficiência intelectual moderada. A sua inserção no mercado de trabalho se deu após a passagem pelo Instituto Ester Assumpção. “Falo que é muito difícil conquistar uma vaga com se é uma pessoa com deficiência, pois há empresas que não tem aquela vaga específica para a pessoa. Mesmo assim, eu fui atrás e participei de um processo seletivo como Jovem Aprendiz na empresa SANCHO S/A, no setor de TI. Uma das grandes dificuldades que vi, foi a questão da minha aceitação, já que algumas pessoas viam a minha dificuldade em algumas atividades, percebiam, não ajudavam e não compreendiam”, comenta.

Uma busca na web mudou a vida de Thamires. “Conheci o trabalho do Instituto Ester Assumpção em 2018 após procurar uma oportunidade na internet. Fiz o processo seletivo junto ao Criança Esperança, que atuou em parceria com o instituto, e assim que acabou fiz o processo para jovem aprendiz para a vaga de assistente administrativo, o que me abriu caminhos. Consegui crescer e sou muito grata, pois eles me ajudaram bastante como pessoa e profissionalmente. Atualmente atuo como auxiliar de Recursos Humanos e muito feliz com tudo”, conclui Thamires Souza.

Sucesso

Com as duas histórias pautadas pelo compromisso e determinação, a psicóloga Cintia Santos, lembra que o Instituto Ester Assumpção trabalha, também, com pessoas com todos os tipos de deficiência. "Podemos dizer que o que define o sucesso não é necessariamente o tipo de deficiência, mas uma conjunção de circunstâncias que vão desde perfil profissional, apoio da família e cultura da empresa. Não existe uma correlação entre tipo de deficiência e uma área de trabalho mais indicada. Isso depende mais do perfil do trabalhador e da disposição da empresa em tornar seus ambientes mais acessíveis e inclusivos", explica.

A psicóloga diz que a maior parte das empresas precisam adotar ações inclusivas. “Creio que a questão mais crítica hoje é a valorização da diversidade. As pessoas com deficiência encontram dificuldades no aspecto arquitetônico, comunicacional, instrumental, mas costumamos dizer que a barreira mais difícil de ser quebrada é a atitudinal. Ainda carecemos de organizações que valorizam e investem na diversidade, tanto para seus clientes quanto para seus empregados", salienta.

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